quarta-feira, 25 de abril de 2007

Diário de São Paulo - 21/04/2007

Trabalho Difícil
25% dos professores da rede estadual sofrem de depressão

Pesquisa mostra principais doenças que atingem educadores em São Paulo
Isis Brum

Um em cada quatro professores da rede estadual de educação em São Paulo sofre de depressão. É a sexta entre as doenças diagnosticadas no magistério (24,4%), sendo que o estresse é o problema que mais atinge os educadores (46,2%).

Os dados são de uma pesquisa inédita lançada ontem pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) sobre as condições de trabalho e de saúde dos educadores da rede. Em 2003, foram questionados 1.626 delegados de ensino, participantes do 9º Congresso Estadual do sindicato. A análise foi feita no ano passado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Salas superlotadas, falta de material didático, jornada dupla para complementar a renda familiar e violência são os fatores associados à incidência de distúrbios mentais e de comportamento (depressão, nervosismo, ansiedade, estresse), osteo-musculares (dores lombares, bursite, tendinite, varizes) e doenças do aparelho respiratório (alergias, gripe, rinite e problemas de voz).

Segundo o estudo, 72,6% dos professores dão aulas em salas de aulas superlotadas. Dos 1.626 avaliados, 43% deles afirmaram trabalhar em classes com 36 até 40 alunos. Para 67% dos educadores, o sofrimento maior é trabalhar sem material didático. A violência nas escolas aparece como a quinta causa do incômodo para os profissionais e afeta a vida de 62,4% deles.

Mudança urgente
Na avaliação do presidente da Apeoesp, Carlos Ramiro de Castro, o resultado do estudo é mais preocupante que surpreendente. Segundo ele, se o governo não adotar um programa de promoção à saúde do professor e não melhorar as condições de trabalho, o cenário futuro será de educadores cada vez mais doentes. “Conseqüentemente, isso representará crescimento do número de licenças e pedidos de afastamento por doenças”, afirma Castro.

A Secretaria Estadual de Educação informa que não comentaria o estudo por ser antigo. Segundo a pasta, os dados obtidos há quatro anos são ultrapassados e não correspondem à realidade.

Educadora faz tratamento para conseguir dormir
Com o diagnóstico médico em mãos, que detectou depressão, ansiedade e distúrbio do sono, S., de 53 anos, lembra os motivos que a fizeram escolher o magistério como profissão: “Eu acreditava que podia salvar esse país com educação, que podia formar cidadãos críticos e combater a pobreza e a desigualdade social. Esse ideal marcou minha geração”, diz ela, que começou a dar aulas há 28 anos.

Abatida e cansada, a educadora terá de fazer um tratamento para conseguir dormir. “Todas as noites, acordo suando frio, nervosa, só de pensar que terei de ir à escola no outro dia”, afirma. A jornada é árdua. Com exceção das quintas-feiras, ela dá aulas das 7h às 19h40, mais de 12 horas de dedicação em classe. E isso sem contar o tempo que gasta corrigindo provas e preparando aulas.

Apesar do empenho, a professora sente que o esforço é em vão. “Não somos valorizados, estamos desmotivados em todos os sentidos. Não conseguimos mais falar a linguagem do aluno e, por alguma razão, que eu desconheço, eles não se interessam por aquilo que falamos”, preocupa-se.

Aulas mais elaboradas e material pedagógico diferenciado são formas que os professores encontram para atrair o estudante e prender sua atenção, mas nem sempre dá certo. O problema: falta de dinheiro. “Se eu quero ir além do livro didático, tenho de tirar dinheiro do meu bolso. Em casa, faço pesquisas na internet, imprimo material interessante e faço xerox para distribuir entre os alunos. Isso tudo desgasta e cansa.”

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